Enigmas do corpo
 

 
Copyright © 2010 - 2016 Fabíola Campos Todos os Direitos Reservados

 

Diáfanos corpos femininos, pássaros e flores de inspiração realista, jogos de transparências de paisagens fundidas e pinturas de ambientes integram o diversificado mundo artístico de Fabíola Campos.

Esses elementos, desenvolvidos paralelamente, constituem uma obra que merece olhar mais atento.

Nascida em São Paulo, SP, em 1974, Fabíola sempre gostou de desenhar em papéis e paredes, inclusive nas costas de panfletos. Um tio levou esses trabalhos para um artista plástico que, não só gostou, como a presenteou com telas, tubos, tintas e pincéis e outros materiais que ainda nem sabia usar.


Em 1988, a mãe a levou para ter aulas que lhe permitissem dominar a pintura a óleo. Ficou apenas uma semana, pois o professor lhe disse que poderia prosseguir sozinha com o talento que tinha. Não só não cobrou as aulas como ainda lhe deu um cavalete. Logo começou a vender trabalhos em 1991, passou num teste para expor os seus trabalhos na Praça da República.


Seu currículo, que inclui exposições individuais e coletivas, tem como destaque diversos prêmios da Associação Paulista de Belas Artes e da Associação Comercial de São Paulo.
Das vertentes mencionadas de seu trabalho, a que mais encanta é a que extrai momentos de intensa sensibilidade a partir da figura humana. As telas que realiza de corpos femininos e de mãos se entrelaçando apresentam diversos aspectos surrealistas, mas chama a atenção pela maneira como se vale das cores para passar ao observador estados de alma.


Fabíola começou a carreira pintando cavalos e outros animais. Um desenvolvimento desse início pode se encontrado nas pinturas que faz de pássaros. São curiós, beija-flores, corujas, tucanos, sabiás e pintassilgos, entre outros, que surgem com intenso colorido e realismo em cenários igualmente próximos à natureza.


Há aí um domínio técnico também encontrado nas pinturas de ambientes, que exigem grande amor ao detalhe e à perfeição, assim como uma noção de espaço que não deixe de levar em conta como uma falha na execução pode comprometer o todo do trabalho.
Embora as figuras femininas comentadas sejam a grande contribuição que Fabíola pode dar em termos de originalidade, outra faceta artística a que vem se dedicando não pode passar em branco.

Ela cria paisagens fundidas de praias em que crianças brincando ou embarcações são apresentadas com um interessante jogo de sobreposições.
Há ainda caravanas, cavalos, imagens da Av. Paulista e da Cidade de São Paulo, como o Pico do Jaraguá, que também utilizam o recurso de trabalhar sobre uma imagem a partir de véus ou figuras geométricas delimitadas por diferentes cores, estabelecendo uma atmosfera fantástica, que interroga o espectador.


É, porém, nas mulheres pensativas e no trabalho com o corpo humano que Fabíola Campos parece atingir o melhor de sua poética e linguagem pictórica. Nesses momentos, sua pintura ganha em lirismo e sinceridade sendo provável que, no futuro, se valha cada vez mais desse tema com o apuro técnico que os anos trazem a todo artista.


Ao ter o corpo humano como assunto principalmente o da mulher, a artista paulista liberta arquétipos como o arredondamento das formas, em alusões, mais ou menos explícitas de acordo com o trabalho, ao útero materno, além de uma visão enigmática da existência humana repleta de sensibilidade, feminilidade e uma delicadeza a toda prova.
 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando a arte de Ranchinho (Nova América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).